Uma revista local publicou um anúncio de casino online disfarçado de história da Ericeira
Na segunda-feira, a AZUL Ericeira Mag publicou o que parece ser um artigo de história local: "Do Grande Casino da Ericeira aos casinos online". Começa com a história do antigo casino no edifício que é hoje a Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, fundado em 1861 como clube recreativo e mais tarde transformado em sala de jogo pelo empresário Joaquim Ferreira.
Depois muda de rumo. A maior parte do artigo é sobre slots, roleta e blackjack online, e sobre como é fácil jogá-los no telemóvel. A meio, nomeia uma casa de apostas concreta e põe uma ligação direta para o seu site de casino com as palavras "casino online". A imagem principal nem sequer é uma fotografia do antigo casino, mas um desenho garrido de um telemóvel a gritar "JACKPOT!", "YOU WIN!" e "BONUS".
Um artigo pago, sem o dizer
Tudo indica que o artigo é pago. O nome do ficheiro da imagem principal é "artigo patrocinado". Mas nada do que o leitor vê o indica: não há qualquer menção a "patrocinado" ou "publicidade" na página, e a ligação para o site de apostas também não está marcada como ligação paga. Para quem o vê no feed, parece mais um artigo de uma revista local em que confia.
A lei da publicidade portuguesa assenta no princípio de que a publicidade tem de ser claramente identificável como tal. Disfarçar a promoção de um casino online num texto nostálgico sobre o património da Ericeira faz exatamente o contrário. A história local é o embrulho; a ligação é o produto.
Porque é que as publicações o fazem
Não é difícil perceber porque acontece. A imprensa local e regional em Portugal está sob pressão há anos: as vendas em papel e os classificados caíram a pique, e a maior parte do dinheiro da publicidade online vai para a Google e a Meta. As casas de apostas, pelo contrário, têm dinheiro para gastar e querem ligações de sites locais com credibilidade. Um artigo patrocinado é dinheiro rápido para uma pequena publicação.
Essa pressão é real, e a AZUL publicou ao longo dos anos muito jornalismo local genuíno. Mas os leitores só podem confiar numa publicação se conseguirem distinguir o jornalismo da publicidade. Quando essa fronteira se esbate, cada artigo fica um pouco menos credível.
Quem paga são os jovens
O jogo online cresceu depressa em Portugal desde que foi legalizado em 2015, e as marcas de apostas estão em todo o lado, das camisolas de futebol aos intervalos na televisão. Quem mais alcançam são os jovens, e os jovens em Portugal já vivem com dificuldades: salários baixos, rendas que levam a maior parte do ordenado, e muitos a sair do país para construir uma vida noutro lado.
Para alguém nessa situação, uma aplicação que promete um jackpot não é entretenimento inofensivo. É um atalho tentador em que, por definição, a casa ganha no longo prazo. Promovê-la através de uma revista local de confiança, sem dizer aos leitores que é publicidade, torna-a normal e torna-a local. O próprio artigo admite que o jogo nunca deve ser visto como forma de rendimento. É pena que tenha sido escrito para encaminhar os leitores para um casino na mesma.
Se o jogo está a causar problemas a si ou a alguém que conhece, a linha 1414 do SICAD presta apoio gratuito e confidencial.